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Compartilhar os desafios da paternidade moderna

Escrito por: Anacélie Azevedo, secretária da mulher da CUT Paraná

06/09/2017

Quase sempre que reflito sobre algo, procuro buscar imagens para abrir as caixinhas do meu cérebro. Desde o dia dos pais, há alguns domingos atrás, tenho refletido sobre os avanços que nossa sociedade já conquistou e o que ainda é preciso avançar no sentido de uma paternidade completa.

Nesta breve pesquisa ilustrativa de pais e mães na internet, me deparei com imagens satirizando o papel dos pais, quase sempre fazendo brincadeira que indicam que eles não sabem cuidar dos filhos; enquanto que nas pesquisas sobre as mães, muitas vezes mostravam mulheres atarefadas demais, fazendo muitas coisas ao mesmo tempo. Eu escolhi para minha reflexão a imagem de um pai muito amoroso com seu filho, pois ela me inspira e deveria inspirar a humanidade.

Refletir sobre ser mãe não é nada difícil para qualquer mulher, até para uma que nunca teve filhos, como eu, mas que tem pensando com frequência sobre o assunto. Não é nada complicado, pois fomos socialmente “naturalizadas” para essa função. Nossas brincadeiras de infância sempre foram cuidar de bonecas, fazer comidinha, limpar a casa, sempre dentro de casa; enquanto eles, os meninos, brincavam do lado de fora, com bola, bicicleta, carrinhos, grandes aventuras etc. Ainda bem que isso tudo tem mudado. Nas novas gerações as brincadeiras estão se equacionando, fazendo com que as meninas ganhem mais empoderamento com brincadeiras mais soltas e os meninos naturalizem os cuidados com a casa e filhos.

Esse será um dos maiores impactos a influenciar na igualdade de gênero, visto que um dos fatores que mais prejudicam o desenvolvimento das mulheres na vida social é a ausência de compartilhamento das responsabilidades domésticas.

As pesquisas recentes demonstram que ainda precisamos avançar muito no compartilhamento das atividades domésticas e cuidados com os filhos. Segundo pesquisa de 2016, realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 8 em cada 10 homens não dividem tarefas domésticas com suas parceiras, 36% das mulheres dizem dividir com marido as tarefas de casa igualmente e 57,7% se dizem as principais responsáveis por cuidados com casa e filhos. A pesquisa também mostrou que 71,1% das mulheres dizem que são elas que cuidam dos filhos pequenos na maior parte do dia.

Outra pesquisa, de 2015, realizada pela Unicamp (Universidade de Campinas), mostrou que 90% das mulheres fazem tarefas domésticas; entre homens, o índice chega a 40%. Também apontou que mulheres chegam a dedicar 25 horas semanais aos afazeres do lar, enquanto os homens gastam apenas 9 horas, em média. Porém, apenas 52,9% daqueles que estão empregados afirmam que cuidam da casa. Essa proporção entre as mulheres é de 90,9%. Em 2004, esse percentual era de 46,2%, entre eles, e de 91,3%, entre elas.

Homens e mulheres estão igualando suas jornadas de trabalho remunerado. O IBGE, em 2004, demonstrou que eles tinham uma jornada 23,9% maior que elas. Proporção que caiu para 16,9%, em 2015, quando a jornada masculina somou quase 40 horas e a feminina ficou perto de 35 horas, em média.

Na realidade, não são precisos dados para fazer essa reflexão, basta olhar como se dão as relações de casais heterossexuais em nossa geração. Salvo raras exceções, os homens em idade média entre 30 e 40 anos se esforçam para realizar esse compartilhamento de tarefas. A maior parte da responsabilidade, todavia, ainda recai sobre as mulheres. Os homens, ao invés de compartilhar, se colocam no papel de ajudantes e ainda são supervalorizados quando fazem algo . Alguns auxiliam na cozinha, nas compras e até no cuidado com os filhos. Entretanto, normalmente quem está adiante nas tarefas e atentas a tudo que permeia o cuidado do lar e dos filhos são as mulheres. Suas mentes estão sempre preocupadas com as necessidades de suas crianças. Por outro lado, os homens possuem a cabeça bem mais tranquila neste sentido. Os mais dispostos recebem numa boa as “ordens” enviadas pelas suas companheiras.

Neste sentido, existem disparidades nas responsabilidades de homens e mulheres acerca dos cuidados da casa e da família. Nos lares mais avançados, os papéis já são bem definidos conforme as afinidades de cada progenitor diante de tantas demandas para manter os lares em ordem. Essa diferença nas tarefas faz com que mulheres contemporâneas trabalhem mais e muitas vezes não consigam usufruir de tempo para si; enquanto os homens tendem a conseguir priorizar seus lazeres pessoais. 

Como ainda não chegamos no modelo ideal de paternidade, apesar dos belos passos dados até aqui nesta direção, as mulheres de nossa geração se sentem mais sobrecarregadas ao acumular a responsabilidade com a família, a casa e o desejo de sucesso no trabalho e na vida íntima. Por isso, elas têm cada vez mais se questionado sobre o desejo da maternidade. Para agilizar este processo é preciso que atores político-sociais coletivos tomem ações. O Estado deve se responsabilizar pela implementação de estruturas como creches, escolas e espaços de socialização, capazes de minimizar os impactos que recaem sobre as mulheres na criação dos filhos. Os sindicatos devem atuar conscientizando as trabalhadoras e trabalhadores sobre as questões de gênero. Os movimentos sociais, em especial o movimento feminista, realizar ações e pressionar pela transformação desta realidade.

Pode parecer que este é um assunto manjado quando colocado em debate. Alguns homens se sentem até ofendidos em fazê-lo e resistem a ser confrontados com a realidade. Entendo a ofensa, pois uma parcela deles se esforça para mudar drasticamente o que foi naturalizado em suas vidas, pois cresceram vendo mulheres – irmã, mãe, avó, tia ou empregadas – realizando essas tarefas de cuidado com a casa e a família. Considero um grande avanço de nossa contemporaneidade esse processo de mudança social que nós, mulheres e homens entre 30 e 40 anos, estamos vivendo, e que trará muitos benefícios às novas gerações, rumo a uma nova organização social e familiar. Uma organização que prime pela humanização e igualdade, onde o amor e o cuidado sejam uma construção social dentro de cada um de nós.

Anacélie Azevedo
Feminista e Dirigente do Sindipetro PR e SC, da CUT-PR e da FUP

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