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Essa tal luta de classes

Escrito por: Aparecida Reis Barbosa, secretária de Formação da CUT Paraná

05/07/2017


“Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar” (Zeca Pagodinho). Diferentemente do caviar, experimentamos a luta de classes todos os dias, engolimos a seco, ou tragamos sem percebê-la, vamos aos poucos, nos acostumando e aprendendo a não enxergá-la. Para simplificar, vivemos no sistema capitalista, ou seja, sistema econômico em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada visando lucro. Daí resultam duas classes sociais que dão sustentação a este modelo econômico: de um lado a Classe Burguesa, os donos dos meios de produção, distribuição e da propriedade, e do outro, a Classe Trabalhadora, ou o proletariado, que desprovida dos meios de produção, vendem sua força de trabalho para manter sua sobrevivência.

A luta de classes existe desde tempos remotos e ao longo dos anos impulsionou revoluções, marcadas/forjadas na contradição entre a classe dominante que explora e acumula riqueza, e a classe trabalhadora explorada e desprovida, por vezes, de condições dignas de sobrevivência. O termo ‘Burguês’ nasce ainda na Idade Média, marcada pelo modo de produção feudal. O feudo, grande propriedade de terras, vivia do trabalho de seus servos. Fora do feudo, formaram-se os Burgos do latim "burgus", que significa fortaleza, ou do alemão "burgs", pequena cidade, ali moravam comerciantes e artesãos, que no período da revolução industrial eram os detentores dos meios de produção (maquinários, propriedade e capital). Já os proletários (trabalhadores) nada possuíam, só tinham a sua força de trabalho e sua “prole”, seus filhos, daí a origem do termo proletários.

O capitalismo vive e se alimenta desta contradição básica Capital x Trabalho. Simples assim: quem tem o capital X quem vive do trabalho. Segundo Marx, lucro não se realiza na compra e venda da mercadoria. O lucro é o resultado da força de trabalho dispendida na produção, a diferença entre o salário que o/a trabalhador/a recebe e o valor real de seu trabalho, ou seja, o trabalho não pago (mais valia). Em síntese, significa afirmar que o que move a economia, alimenta o capital e o capitalista é o trabalho, não o capital. Então o acúmulo de capital só se realiza pela exploração do trabalho. Assim fica fácil entender por que poucos possuem tanto e tantos possuem tão pouco. Segundo a ONG britância Oxfam, oito pessoas no planeta possuem tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial. A concentração de riqueza é tão absurda, quanto injusta, uma vez, que a classe trabalhadora, com seu trabalho, é quem garante o acúmulo dessa riqueza nas mãos de poucos.

Por que este sistema que explora o trabalhador sobrevive com tanta força e vigor se numericamente a classe trabalhadora é maioria? Aí é que entra a ideologia. Marilena Chauí define ideologia como sendo um mascaramento da realidade social, que permite a legitimação da exploração e da dominação. Por intermédio da ideologia tomamos o falso por verdadeiro e o injusto por justo. Isto acontece por que as “ideias aparecem como produzidas somente pelo pensamento”, desvinculadas das condições concretas da vida. Faz parecer que não há relação entre o vivido e o pensado, “as ideias não aparecem como produtos do pensamento de homens e mulheres social, econômica, política e historicamente determinados”.

Os ideias liberais, que tem sua centralidade no indivíduo, na competição e na meritocracia, expressa na máxima “cada um por si e deus por todos”, sustenta ideologicamente o capitalismo. Assim, faz crer, por exemplo, que as diferenças sociais são frutos do mérito de cada um, que sempre existiu e sempre existirão ricos e pobres, que isso é natural e não fruto das relações entre as classes. A ideologia produz um modo de pensar, que reproduz e naturaliza as relações de exploração, tipo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, “Deus ajuda quem cedo madruga”, “quem pode, pode, quem não pode se sacode” e assim por diante. Desta forma a ideologia burguesa te convence que ser pobre é quase uma doença, é culpa sua, que se você se esforçar bastante, for criativo e ‘esperto’, pensando só em você, poderá melhorar de vida! Para conquistar esse ideal desejado e se aproximar deste universo, se constrói a falsa crença de que é preciso se livrar da condição de classe trabalhadora. O caminho mais rápido, já que não possui o Capital ou os meios de produção, é assumir a ideologia burguesa, neste caso é como se, por um passe de mágica o simples fato de “pensar como burguês, o fizesse burguês”, só que não. Por isso, nos deparamos com tantos trabalhadores e trabalhadoras que assumem para si os valores burgueses e tem extrema dificuldade de se reconhecer como classe. Isto confere a classe economicamente dominante condições para continuar sendo hegemônica. No entanto, isto não se dá de forma linear e harmônica, uma vez que os trabalhadores e trabalhadoras que conseguem entender essa relação de subordinação e exploração desenvolvem formas de organização nos sindicatos, movimentos sociais e partidos e lutam para superar tal condição, por direitos e melhores condições de trabalho e de existência. O resultado dessa luta se materializa nos direitos trabalhistas, políticas sociais, entre outras.

Atualmente vivenciamos, no Brasil, um momento de acirramento da luta de classes. O Golpe de 2016 que retirou a presidenta Dilma Rousseff da presidência foi um golpe contra a classe trabalhadora. Imediatamente após a tomada o poder, o governo ilegítimo impõe aos trabalhadores uma agenda de retrocessos e retirada de direitos. A reforma trabalhista e a reforma da previdência são exemplos da luta de classes, que sob o discurso pomposo de “modernização das leis trabalhistas”, aponta como horizonte a livre negociação entre quem “manda” e quem “obedece”, ou seja, legaliza o não direito, na premissa do negociado sobre o legislado. O que na prática significa que a lei não valerá quase nada. No campo das relações de trabalho impõe um retrocesso de 100 anos. A primeira greve geral, em 1907, tinha como principal pauta a jornada de trabalho de 8 horas, pois naquela época não existia regulamentação sobre isso. Os trabalhadores, trabalhadoras, jovens, crianças e idosos trabalhavam de 12 a 18 horas diárias. A (contra)reforma trabalhista, que tramita no Senado, proposta pelo desgoverno Temer acaba com a jornada de 8 horas e oficializa o trabalho por hora trabalhada. Neste caso, ao invés de jornada diária, o/a trabalhador/a receberá apenas por hora trabalhada, com o pomposo nome de ‘trabalho intermitente’.

A reforma da previdência representa para a classe trabalhadora a não aposentadoria e a extinção do sistema previdenciário. A aposentadoria será mercadoria disponível no mercado financeiro. Como o mercado financeiro é volátil e variável, será mercadoria sem garantia de retorno. Este é o saldo do Golpe, o presente dado à Classe Dominante, entregue ás custas do sangue e suor da classe trabalhadora.

Agora mais do que nunca se coloca a necessidade de união da classe trabalhadora na defesa de direitos e contra a opressão. Para isso é preciso se perguntar: de que lado estamos nesta tal luta de classes? Zeca Pagodinho, no bom popular já dá a letra: “Caviar é comida de rico curioso fico, só sei que se come. Na mesa de poucos fartura adoidado. Mas se olha pro lado depara com a fome”.

A tomada de consciência e o sentido de pertencer à classe trabalhadora, nos ajuda a entender as contradições existentes. Entender que apesar de vivermos num mundo diverso, com inúmeras possibilidades, temos muito que avançar nos processos de humanização. Apesar de todos os avanços científicos, tecnológicos e a imensa produção de riquezas, há ainda uma diferença imensa entre quem produz e quem se apropria do que é produzido. Entender que quem produz a riqueza deve ter participação efetiva no resultado dessa riqueza é elevar sua consciência de classe. Isto possibilita processos de organização, resistência e luta! Entender que no chão da fábrica, na indústria, comércio e serviços, no campo, na cidade ou no serviço público, somos todos e todas trabalhadores e trabalhadoras! Esta consciência nos unifica e nos fortalece! 

“O operário via casas e dentro das estruturas via coisas, objetos, produtos, manufaturas. Via tudo o que fazia. O lucro do seu patrão. E em cada coisa que via, misteriosamente havia a marca de sua mão. E o operário disse: Não!” (Operário em Construção/ Vinícius de Moraes)


Referências bibliográficas
ARANHA, Maria Lucia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução á filosofia. São Paulo, 2009. Editora Moderna.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia / Marilena Chauí. 7. 2. ed 7 São Paulo : Brasiliense, 2008. 7. (Coleção primeiros passos ; 13). 9ª reimpr. da 2. ed. de 2001.
KARL Marx. O Capital, 1979. Economia. Edição Popular . 5° Edição. Biblioteca 70.
 

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