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Dia da Consciência Negra - Guerreiras Negras invisibilizadas pela história

Escrito por: Juliana Mittelbach, da Rede Mulheres Negras PR

21/11/2016

O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado, no Brasil, em 20 de novembro, foi criado em 2003 no calendário escolar e oficialmente instituído em âmbito nacional mediante a lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. É considerado feriado em cerca de mil cidades em todo o país e nos estados de Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e Rio de Janeiro através de decretos estaduais. O Paraná por exemplo mostra marcas do racismo institucional quando, sendo a maior estado em número de negras e negros do sul do país, segundo dados do IBGE, não adere ao feriado que tem como um dos principais objetivos combater o racismo.

Esta data é dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida por ser o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Porém como militante da causa das mulheres negras queria aqui trazer a história de duas guerreiras que lutaram contra o sistema escravista, e que foram fundamentais na história do Quilombo de Palmares: Aqualtune e Dandara.

Aqualtune Ezgondidu Mahamud da Silva Santos, conhecida por Aqualtune, era uma princesa africana filha do importante Rei do Congo. Viveu no século XVII e em 1665 liderou uma força de dez mil homens para combater a invasão de seu reino, na Batalha de Mbwila, entre o Reino de Congo e Portugal. Derrotada foi aprisionada e trazida para o Brasil em um navio negreiro, chegando no Porto de Recife, principal centro produtor de açúcar e entreposto comercial da América Portuguesa. Lá foi vendida como escrava reprodutora

Era obrigada a ter relações sexuais com outros escravos. Ao ficar grávida, foi vendida para o engenho de Porto Calvo, no Sul de Pernambuco, onde tomou conhecimento de Palmares, também conhecido como Angola Janga (Minha Angola Pequena). Nos últimos meses de gravidez organizou uma fuga junto com outros escravos para o quilombo, onde teve sua ascendência reconhecida, recebendo, então, o governo de um dos territórios quilombolas, onde as tradições africanas eram mantidas.

Este tinha uma grande dimensão territorial, com inúmeros povoados fortificados, onde os ex-escravos preparavam a organização de um estado negro naquelas terras. Mantinham a tradições africanas e seus ritos originais; assim o governo de cada localidade era dado aos que em sua terra tinham sido chefes. Aqualtune, com seus conhecimentos políticos, organizacionais e de estratégia de guerra, foi fundamental para a consolidação do Estado Negro, a República de Palmares.

Começou, então, ao lado de Ganga Zumba, seu filho, a organização de um Estado Negro, que abrangia povoados distintos, confederados sob a direção suprema de um chefe. Dois de seus filhos, Ganga Zumba e Gana Zona tornaram-se chefes dos mocambos mais importantes do quilombo. Aqualtune também teve filhas, a mais velha das quais, chamada Sabina, deu-lhe um neto, nascido quando Palmares se preparava para mais um ataque holandês. Por isso, os negros cantaram e rezaram muito aos deuses, pedindo que o Sobrinho de Ganga Zumba, e, portanto, seu herdeiro, crescesse forte. Para sensibilizar o deus da guerra, deram-lhe o nome de Zumbi. A criança cresceu livre e passou sua infância ao lado de seu irmão mais novo chamado Andalaquituche, em pescarias, caçadas, brincadeiras, ao longo dos caminhos camuflados, que ligavam os mocambos entre si. Garoto ainda, Zumbi conhecia Palmares inteiro. Passam-se os anos e Palmares tornou-se cada vez mais uma potência. Mais de 50.000 habitantes livres, distribuídos em vários mocambos. Zumbi cresceu e casou-se com Dandara.

Dandara foi uma grande guerreira do Quilombo dos Palmares. Uma das lideranças femininas negras que lutou contra o sistema escravocrata do século XVII e auxiliou Zumbi quanto às estratégias e planos de ataque e defesa do Quilombo.

Embora não haja registros de seu local de nascimento os relatos levam a crer que nasceu no Brasil e se estabeleceu no Quilombo dos Palmares enquanto criança. Pertencia a nação Nagô- jejê, da Tribo de Mahi, religião muçulmana. Casou-se com Zumbi e com ele, Dandara teve três filhos: Motumbo, Harmódio e Aristogíton.

Dandara foi um exemplo de força dentro do quilombo. Ela plantava, trabalhava na produção da farinha de mandioca, cuidava das crianças e anciãos, caçava e lutava capoeira, além de empunhar armas e liderar as falanges femininas do exército negro palmarino.

Liderança reconhecida no Quilombo, defendia a posição contrária ao Tratado de Paz assinado por Ganga-Zumba (tio de Zumbi) e pelo governo Português, que requeria a mudança dos habitantes de Palmares para as terras do Vale do Cacau. O Tratado também estabelecia que os negros livres ficassem livres e que os escravos voltassem a ser escravos. Dandara não concordava, pois defendia junto com Zumbi, que a liberdade deveria ser para todos, não importando se era negro livre, escravizado, mestiço ou índio.

Suicidou-se em 06 de fevereiro de 1694, ao ser capturada e levada como escrava após a destruição da Cerca dos Macacos, que fazia parte do Quilombo dos Palmares.

Sua história, assim como a de vários líderes negros, é pouco divulgada, apesar da escravização de negros no Brasil ter durado quase 400 anos. Ainda paira na nossa sociedade o conceito de que os negros foram escravizados sem resistência. Que somente os índios lutaram contra a escravização e por isso foram quase dizimados. A verdade é que quem decide a história contada em nossos livros didáticos optou em muitos momentos em omitir fatos e personagens que protagonizaram importantes movimentos de resistência ao regime escravista posto na época. Vende-se a imagem de fim da escravização de negros pela benevolência da princesa Isabel.

Quero aqui afirmar que minha Princesa não é a Isabel. Minhas Princesas são Aqualtune e Dandara!

A guerra comandada pelos paulistas para destruir o quilombo de Palmares é uma das páginas mais dolorosas da história do Brasil. Em 1677, a aldeia de Aqualtune, que já estava idosa, foi queimada pelas expedições coloniais. Não se sabe a data de morte de Aqualtune, mas os quilombolas permaneceram lutando até serem finalmente derrotados, em novembro de 1695, pela bandeira do paulista Domingos Jorge Velho.

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