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Assédio moral: novas estatísticas para um velho problema

01/03/2018

FETEC-PR divulga dados de nova pesquisa realizada com mais de mil bancários de todo o Paraná

Escrito por: Fetec-CUT-PR

Os 28 anos de Itaú de Cláudio* deixaram nele algumas marcas irreversíveis: ao longo de sua trajetória como bancário, desenvolveu doenças como síndrome do pânico, síndrome do túnel do carpo nos dois punhos e epicondilite crônica no braço direito. Marcas que nenhum trabalhador gostaria de carregar. Nesses quase trinta anos de trabalho e faltando apenas cinco para se aposentar, Cláudio, demitido pelo banco poucos meses após voltar de uma licença médica, relata que seus traumas e sua história não são nem de longe um caso isolado no ambiente bancário. “Além de mim, são inúmeros os colegas que passaram por pelo menos uma humilhação no trabalho, e todos sofrem com pressões e cobranças excessivas diariamente, desenvolvendo todo o tipo de doença física ou psicológica”, conta ele.

Uma pesquisa realizada pela FETEC PR – Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito no Paraná em junho deste ano, entrevistando 1094 bancários do Estado, reforça que o assédio moral organizacional e metas abusivas continuam ameaçando a saúde de bancários. Casos como o de Cláudio, lamentavelmente, não são pontuais, mas sim sistemáticos.

Um mal que faz parte do cotidiano bancário

Afetados pela terceirização e precarização, os trabalhadores da categoria continuam sofrendo com altos índices de doenças em consequência das pressões por metas abusivas. Dentre os funcionários do Banco do Brasil ouvidos pela pesquisa, por exemplo, 32,7% afirmam que foram ou são vítimas de assédio moral no trabalho, 5% conhecem alguém que já foi assediado e mais da metade dos entrevistados, 51,5% acredita que o banco protege o assediador.

Em levantamento do Ministério Público do Trabalho de 2013, de 3 mil denúncias de assédio moral organizacional realizadas naquele ano, 30% foram em bancos. Ou seja: três de cada dez casos de assédio moral no país inteiro.

Para o dirigente sindical e secretário de Saúde da FETEC-PR, Ademir Vidolin, o desejo desenfreado das grandes corporações pela ampliação do lucro transforma o local de trabalho em um ambiente doentio. “Através de uma hierarquia rigorosa, na qual o poder é exercido de forma incisiva na cobrança de resultados, o assédio moral se torna uma ferramenta para atingir o crescimento desenfreado financeiro dessas corporações. Qual o preço que os trabalhadores terão de pagar para saciar toda a ganância do capital?”, reflete.

Outros dados da pesquisa mostram que o aspecto “Saúde” é indicado pelos trabalhadores como o tema que o Sindicato deve atuar mais fortemente, acima de outros assuntos, como a luta pelo emprego e o combate às reformas do governo (previdenciária e trabalhista). Isso não significa que outros aspectos merecem menos atenção na luta sindical, mas demonstram a urgência na pauta da saúde do trabalhador, promovida essencialmente através de melhorias no ambiente de trabalho e na estrutura do sistema bancário.

Para o ex-bancário Cláudio, para melhorar a qualidade do ambiente de trabalho é preciso acabar com metas e cobranças irreais. “No Itaú, por exemplo, você trabalha com uma meta mensal de valores de contrato. Mas chega um momento em que a meta inicial é para ‘os molengas’: você precisa de mais que isso e, para atingir essa nova meta, você acaba fazendo de maneiras não tão corretas, pressão excessiva nos clientes, e até venda casada”, revela. “Mesmo assim, bater a meta não significa melhorar sua vida, pois sua produção de um mês influencia no mês seguinte, quando você é cobrado para superar os resultados anteriores, e assim por diante. Em pouco tempo suas metas vão se tornando impossíveis”. É aí que doenças como depressão, síndrome do pânico e insônia começam a dar sinais.

Para 38,1% dos trabalhadores da Caixa Econômica entrevistados pela pesquisa da FETEC, metas elevadas causam problemas psicológicos; 27,9% dos funcionários do Bradesco indicam que metas elevadas geram problemas familiares e 29,2% dos trabalhadores do Banco do Brasil afirmam que pressão por metas gera problemas de insônia. São dados alarmantes. No Santander, 54,2% dos funcionários dizem receber ameaças de punição ou demissão caso não entreguem as metas.

Dessa forma, e com novas estatísticas apontando um velho e cada vez mais grave problema no setor, é importante que sejam elaboradas estratégias coordenadas e integradas, com a finalidade de, em um primeiro momento, promover a prevenção do assédio moral no trabalho e apresentar formas eficientes de coibir tais condutas. E, em um segundo momento, apresentar soluções repressivas, que também possuem caráter pedagógico. Este movimento de combate ao assédio imoral precisa da unificação da categoria, através de sua representatividade no Sindicato e suporte do Ministério Público do Trabalho.

O que define assédio moral?

Assédio moral é a conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude) no local de trabalho que atenta por sua repetição ou sistematização contra a dignidade do trabalhador e, assim, afeta a integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho. O assédio moral pode acontecer entre parceiros de trabalho – chamado horizontal – ou pelo superior – o chamado assédio vertical. Trata-se assédio moral organizacional quando o assédio não é resultado de atos individuais, mas faz parte do cotidiano de gerenciamento do trabalho.

*A identidade do entrevistado foi mantida em anonimato a pedido do mesmo.

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